- Tem coisas que nunca mudam… - Falei num sussurro.
Ele, sempre distante, não me olhava.
Eu, por outro lado, não conseguia tirar os olhos de seu rosto.
A luz fraca que vinha da rua entrava pelo vidro da janela e delineava seus traços com suavidade. Pensando bem, naquele momento tive a sensação de que eu nunca parei tempo o suficiente para olhá-lo. E ainda assim, mesmo depois de tantos anos, eu sabia exatamente o que estava passando pela sua cabeça.
A barreira tinha ruído. Finalmente. As mentiras tinham acabado, assim como os ataques e a vontade incessante que ele tinha de me ferir. Talvez até estivesse vasculhando suas lembranças, tentando achar algum meio de abrir minhas feridas mal cicatrizadas. Mas não, hoje não. Eu finalmente consegui quebrar o muro que nós mesmos erguemos. Os ataques cessaram.
Tínhamos ficado em silêncio pelo que me pareceu tempo demais e guiada pela vontade maluca de um coração palpitante, me aproximei. Talvez um pouco mais do que deveria. Encaixei meu rosto na curva de seu pescoço e senti o perfume que ele havia escolhido, não era o que eu lembrava, mas achei que combinava com ele.
Pousei minha mão em seu rosto e ele a acariciou levemente, respirando fundo.
Por alguns momentos achei que estivesse segurando pra não cair no choro. Quanto tempo fazia que ele não chorava? Acredito que ali, algumas feridas também não estavam cicatrizadas. Mas ele não admitiria tamanha fraqueza. Ele jamais colocaria pra fora o quanto eu o magoei. Porém para nós, palavras já não eram necessárias, eu sabia. E ele sabia que eu sabia.
Continuamos imóveis por alguns momentos e então ele se deixou levar, me apertou num meio abraço e com a mão livre segurou na minha dando um beijo doce. Pensei em inúmeras coisas pra dizer. Filmes, músicas, poemas me passaram na cabeça, mas nada se encaixava naquele momento. Era uma sensação já conhecida, um aconchego. Era como chegar em casa depois de um dia cansativo. Naquele momento não precisávamos provar nada um para o outro, não precisávamos nos atacar ou mostrar quem era o mais forte. Estávamos em paz, aproveitando o pouco de tempo que nos restava. Estávamos começando a entender coisas que antes não entendíamos.
Me virei pra ele sorrindo, olhei bem em seus olhos enquanto ele me retribuía um sorriso um tanto quanto inconformado.
- É… e é forte demais. Grande demais. Não muda. - Ele finalmente respondeu num suspiro.
Era algo simples, no meio de um mundo de complicações.